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Mulheres negras avançam no mundo do trabalho, mas desafios ainda persistem

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A presença de mulheres negras nos espaços de chefia e liderança é resultado de séculos de enfrentamento ao racismo e ao sexismo, heranças de uma sociedade construída sobre profundas desigualdades.
 
Assinam o artigo:

Ana Carla Fagundes de Carvalho
Secretária de Combate ao Racismo – CUT Ba

Gilene Pinheiro
Secretaria de Relações do Trabalho – CUT BA

Lucivaldina Brito
Secretaria de Mulheres – CUT BA

Lucila Correia
Secretaria de Organização e Políticas Sindicais – CUT BA

Marta Licia
Secretária de Formação da CUT BA

Auristela Félix de Oliveira Teodoro Diretora Financeira – Apub Sindicato

Erilza Galvão
Coordenadora Geral – Sintsef

Adriana Lima
Secretaria Adjunta – CUT BA

Euzita Oliveira
Secretaria de Direitos Humanos CUT Bahia

Luciola Simeão
Secretária de Mulher e combate ao Racismo – Sindiquimica


07/07/2026 – Ao longo das últimas décadas, as mulheres conquistaram importantes espaços de liderança no mundo do trabalho. Cada vez mais presentes em cargos de gestão, na política, na academia, nos sindicatos e em posições estratégicas de tomada de decisão, elas vêm transformando estruturas historicamente marcadas pela exclusão. Entre essas conquistas, o avanço das mulheres negras representa uma das mais significativas expressões de resistência, organização e luta coletiva.

Esse movimento, no entanto, ainda acontece em ritmo lento. A presença de mulheres negras nos espaços de chefia e liderança é resultado de séculos de enfrentamento ao racismo e ao sexismo, heranças de uma sociedade construída sobre profundas desigualdades. Cada ocupação de um cargo de direção, cada promoção conquistada e cada voz negra feminina que passa a ser ouvida nos espaços de poder carrega a força das ancestrais que resistiram à escravização,ao apagamento e à exclusão social.

Se hoje mulheres negras ocupam universidades, dirigem sindicatos, coordenam projetos, empreendem, produzem conhecimento e lideram movimentos sociais, é porque outras mulheres abriram caminhos antes delas. Foram trabalhadoras domésticas, lavadeiras, agricultoras, quituteiras, educadoras populares e lideranças comunitárias que sustentaram gerações inteiras e construíram, muitas vezes de forma invisibilizada, as bases para os avanços que testemunhamos atualmente.

O que mostram os dados

Os dados, entretanto, demonstram que a  reparação ainda está distante. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres negras representam cerca de 28% da população brasileira e aproximadamente um quarto da força de trabalho do país. Ainda assim, sua presença nos espaços de poder permanece extremamente reduzida. Estudos sobre diversidade nas grandes empresas brasileiras apontam que elas ocupam menos de 5% dos cargos de alta liderança, revelando que raça e gênero continuam sendo fatores determinantes para o acesso às oportunidades.

Levantamentos do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), com base na PNAD Contínua, mostram que as mulheres negras seguem recebendo os menores rendimentos médios entre todos os grupos sociais. Também apresentam maiores taxas de desemprego e informalidade e estão concentradas nas ocupações mais precarizadas da economia, como o trabalho doméstico, os serviços de limpeza, os cuidados e outras atividades historicamente desvalorizadas. Mesmo com o aumento da escolaridade e da qualificação profissional, continuam encontrando barreiras impostas pelo racismo estrutural, pela discriminação de gênero e pela dificuldade de acesso às oportunidades de ascensão.

Efeitos do colorismo

As desigualdades tornam-se ainda mais evidentes quando observamos o impacto do colorismo no mundo do trabalho. Estudos acadêmicos sobre relações raciais demonstram que mulheres negras de pele mais escura enfrentam obstáculos ainda maiores para serem contratadas, promovidas e ocuparem cargos de direção do que mulheres pardas. Embora as estatísticas oficiais não utilizem a categoria “preta retinta”, diversos estudos evidenciam que, quanto mais distante do padrão de branquitude, maiores são as barreiras impostas pelo racismo. Isso significa que o mercado de trabalho também é atravessado pelo colorismo, produzindo um afunilamento das oportunidades: as mulheres negras de pele mais escura permanecem mais presentes nas ocupações de menor remuneração e menos representadas nos espaços de liderança e decisão.

Há espaço para celebração

Apesar desses desafios, há motivos para celebrar. O crescimento da presença de mulheres negras nas universidades, nos movimentos sindicais, nas instituições públicas, no empreendedorismo, na produção científica e em funções de liderança demonstra que mudanças importantes estão em curso. Cada conquista individual representa também uma vitória coletiva, fortalecendo a luta por justiça social, igualdade racial e valorização do trabalho.

Julho das Pretas e Secretaria de Combate ao Racismo da CUT Bahia

É nesse contexto que a Central Única dos Trabalhadores da Bahia (CUT Bahia), por meio da Secretaria de Combate ao Racismo, presta homenagem às mulheres negras que fazem da sua trajetória uma ferramenta de transformação social. Neste Julho das Pretas, destacamos duas referências fundamentais da luta das trabalhadoras negras brasileiras: Edenice Santana e Creuza Oliveira.

Suas histórias simbolizam coragem, resistência e compromisso com a construção de uma sociedade mais justa, democrática e antirracista. Homenageá-las é reconhecer que nenhuma conquista foi um presente. Cada direito foi resultado de organização, mobilização e enfrentamento das desigualdades.

Mas reconhecer não basta.

Valorizar o trabalho das mulheres negras exige transformar discursos em ações concretas. Significa defender creches públicas e de qualidade, garantir igualdade salarial, combater todas as formas de assédio e discriminação nos locais de trabalho, ampliar a presença de mulheres negras nos espaços de decisão e incorporar cláusulas antirracistas nas negociações coletivas. Significa também enfrentar o racismo estrutural e o colorismo, que continuam limitando oportunidades e reproduzindo desigualdades dentro do próprio mercado de trabalho. Essas não são pautas exclusivas das mulheres negras; são compromissos com a democracia, a justiça social e a dignidade da classe trabalhadora.

Neste Julho das Pretas, a CUT Bahia reafirma que a luta contra o racismo e o sexismo precisa estar presente em cada sindicato, em cada local de trabalho e em cada mesa de negociação. Que esta homenagem inspire organização, compromisso e atitude. Porque o futuro do trabalho só será verdadeiramente justo quando as mulheres negras tiverem seus direitos plenamente garantidos, sua liderança reconhecida e sua voz respeitada.

Compromisso coletivo

Essa é uma tarefa coletiva. É responsabilidade do movimento sindical transformar essa pauta em ação permanente, fortalecer a negociação coletiva com perspectiva antirracista, garantir mecanismos efetivos de combate ao assédio e à discriminação, defender a igualdade salarial, ampliar a presença das mulheres negras nos espaços de decisão e construir ambientes de trabalho verdadeiramente inclusivos. Valorizar as mulheres negras é fortalecer a democracia, combater as desigualdades e construir um mundo do trabalho mais justo para toda a classe trabalhadora.

Fonte: CUT Bahia /  Foto: Reprodução / Pexel

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