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14/03/2018
Organização sindical em tempos de transformações tecnológicas é tema de debate no FSM, em Salvador.

É hora de superar jurisdições e fronteiras para ampliar a organização dos trabalhadores em esfera transnacional.

14/03/2018 - A segunda mesa da Tenda Futuro do Trabalho, da CUT, no Fórum Social Mundial, nesta quarta-feira, 14, trouxe para o centro dos debates um tema cada vez mais presente nas discussões sobre as relações laborais no Brasil e no mundo nos últimos tempos: “Impactos nos serviços e indústria da revolução científica e tecnológica”. O avanço das tecnologias está mudando rapidamente as formas e relações de trabalho que conhecíamos e as entidades sindicais precisam acompanhar esta nova realidade.

O novo modelo não investe em produção e é marcado pela redução da capacidade industrial dos países, impactando especialmente a indústria pesada ou as que transformam matérias-primas em produtos de consumo. Privatiza as empresas estatais, diminui postos de trabalho, reduz drasticamente o Estado e, a reboque, promove a desigualdade.  O processo, como se sabe, há muito ultrapassou as fronteiras nacionais e, assim como a abstração da economia, é um fenômeno mundial e irreversível.

No Brasil, a grande precariedade do mercado de trabalho, resultado das transformações do capitalismo contemporâneo, tornou-se uma ameaça ainda mais premente após a aprovação da Reforma Trabalhista em 2017.  O país encerrou 2017 com o sombrio registro oficial de 13,23 milhões de desempregados (sem contar aqueles que não estão procurando emprego, como os que fazem parte da população em idade ativa e trabalham na informalidade). E não há indicação de que esses números irão recuar.

“Empresas transnacionais são geradoras de empregos precários, sem vínculos ou segurança social”, explica Valter Sanches, da IndustriALL Global Union, federação internacional dos trabalhadores na indústria. “Os trabalhadores têm ocupação e não emprego”, diz, lembrando o exemplo dos motoristas do Uber.

Segundo ele, é hora dos sindicatos entenderem o que está acontecendo e acompanharem esse processo: “O bonde já passou e é preciso correr atrás”. Entre as maneiras de as entidades enfrentarem esse desafio estão a formação sindical e profissional e a negociação coletiva. Quantos mais os trabalhadores, seja qual for o setor a que pertençam (sobretudo os precários), estiverem organizados em torno dos sindicatos, mais será possível prepará-los e fazer com que os governos passem a regular as ações dessas empresas.

Já o economista Márcio Pochmann, da Fundação Perseu Abramo, aponta que a ação sindical deve acompanhar as novas relações de trabalho. “O mundo hoje é muito diferente de quando se começou a planejar a organização do trabalho e dos trabalhadores”, disse. Citou como exemplo o protagonismo da mulher na sociedade, com mais escolaridade e ocupando os principais postos de trabalho, ainda que a desigualdade persista e a remuneração continue menor.

“O sindicato antes organizava o trabalhador na sua fase ativa e só até a aposentadoria. Hoje, com o envelhecimento crescente da população, com novas classificações etárias indicando a fase adulta dos 65 aos 89 anos, é preciso repensar essas questões levando em conta os novos indicadores”, recomenda Pochmann.  

Além do diagnóstico, os palestrantes também convergiram nos caminhos do enfrentamento. Uma articulação transnacional também deve acontecer com as entidades, mais ou menos como o que a CUT já faz com a organização dos macro setores. Mas é preciso ampliar cada vez mais o leque da unidade. Ir além dos barreiras de jurisdição, que isolam as categorias em seus setores. O capital não tem fronteiras e as entidades têm que superar limites para não sucumbir. Mais que integrantes de determinado segmento profissional, é preciso entender que somos classe trabalhadora.

(Foto: Conceição Oliveira)