Editorial

EDITORIAL

23/02/2016
O Estado, o abandono e o mosquito.

23/02/2016 - Vai verão, vem verão e o que nos espera, além de muito sol, calor e mais uma propaganda machista de cerveja, é a explosão de uma nova onda de doenças virais. Quando pensávamos que já ter visto o ápice da calamidade com o aumento dos surtos de dengue, em anos anteriores, eis que, desde o início de 2015, a crise na saúde pública se agrava ainda mais com o surgimento do Zika vírus.

A nova moléstia vem se juntar a outras transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti, como a dengue, a febre amarela e a febre Chikungunya, para ficarmos apenas entre as principais. Com o surto de Zika surgiram novas preocupações graves, a partir do crescimento de casos de microcefalia e a síndrome de Guillain Barré. Em 1º de fevereiro deste ano, o avanço da microcefalia ligada ao zika vírus nas Américas foi considerado uma emergência internacional pela Organização Mundial da Saúde.

As epidemias avançam, mas os governos – das três esferas - parecem incapazes de reagir à altura. Ao contrário: ao invés de investirem em pesquisa e no fortalecimento de instituições que estão na linha de frente do controle de endemias, preferem “correr atrás do prejuízo”, jogando peso em propaganda ou delegando à população a inglória tarefa de conter as epidemias no seu auge, educando-a para eliminar todos os possíveis ambientes favoráveis para a reprodução do mosquito.

Não se quer aqui questionar a importância de alertar a população para colaborar no combate ao Aedes, mas lembrar que esta ação poderia ser complementar ao invés de prioritária, como é hoje. Há mais de dez anos entidades como a Condsef e suas filiadas, como o Sintsef-BA, alertam para os perigos da política irresponsável de descentralização de órgãos estratégicos, como a Fundação Nacional de Saúde (FUNASA), que atuam no controle de endemias, mostrando como esta ação política traz consequências diretas para o avanço das doenças (e até para o retorno de outras já erradicadas no país).

Despojada de seu papel institucional, a FUNASA perdeu seus técnicos especializados, laboratórios e, não menos grave, a experiência acumulada na área.  Em 2004, agentes de saúde pública passaram a integrar o quadro de estados e municípios que, já se sabia naquela época, não estavam capacitados para desempenhar como deveriam o seu papel na prevenção de surtos endêmicos. Os trabalhadores até hoje enfrentam as consequências desse processo, que lhes trouxe problemas diversos provocados pela súbita mudança de lotação, como o isolamento e o assédio moral.

Desde o governo Collor, os governos brasileiros, em maior ou menor grau, ocupam-se com a redução do tamanho do Estado sem levar em conta um detalhe fundamental: a qualidade do serviço público. O combate à Zika ou ao próprio mosquito é um trabalho permanente, que exigirá políticas públicas cada vez mais amplas, integradas e perenes.

A luta contra o mosquito é também a luta contra o abandono de setores essenciais, como o saneamento básico e o combate às endemias. O Sintsef-BA, ao lado da Condsef e da CUT, seguem engajados pelo fortalecimento das instituições públicas e a garantia de seu papel de prestar cada vez mais serviços gratuitos e de qualidade.