Editorial

EDITORIAL

26/04/2016
Vai ter luta!

“Se os pobres deste país soubessem o que estão preparando para eles, não haveria ruas que coubessem tanta gente para protestar contra o impeachment.” – Leonardo Boff

26/04/2016 - A sessão da Câmara dos Deputados que autorizou o pedido de abertura do processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, escancarou para o país o que está por trás das forças retrógradas que dominam o Congresso Nacional atualmente e que tramam pela deposição do atual governo. A farsa expôs um pouco de tudo que há de mais atrasado em nosso país (e que combatemos há tanto tempo): ignorância, fisiologismo, corrupção, machismo, racismo, autoritarismo, homofobia, oportunismo...

Apenas os ingênuos e os cínicos continuam a negar e a não reconhecer a óbvia orquestração do processo golpista. Os grandes interesses financeiros sediados em São Paulo, apoiados pela maioria dos meios de comunicação, finalmente conduzem ao centro do poder um de seus legítimos representantes. “Promovido” de vice “decorativo” a protagonista do golpe parlamentar, Michel Temer finalmente poderá ter a chance de levar à frente o projeto político deste grupo, que, mais uma vez, visa acumular lucros e limitar severamente as conquistas sociais.

Muitos avanços obtidos pelos trabalhadores ao longo da era petista podem ser deixados para trás. Está em jogo, por exemplo, a CLT, como a conhecemos, através da flexibilização das leis trabalhistas e avanço da terceirização. Ou o fim da obrigatoriedade de reservar verbas para as áreas da saúde e educação. O documento “Ponte para o Futuro” (clique no link para ler na íntegra: http://bit.ly/1jKTsD9), espécie de plano de governo do PMDB para o país, fala na implantação da idade mínima para aposentadoria e em maior parceria com o setor privado (o que aumentará a interferência de interesses privados na gestão de políticas públicas). Alguns destes pontos já foram arduamente combatidos por nós durante o próprio governo Dilma. Com a nova conjuntura política, precisaremos triplicar os esforços para bani-los em definitivo da pauta do Congresso.

Embora Temer negue que vá mexer em programas sociais, lideranças peemedebistas têm afirmado em entrevistas que há, sim, a possibilidade de limitar recursos do FGTS para financiar o “Minha Casa, Minha Vida” (o que poderá levar ao fim do programa) e de revisar programas de financiamento estudantil, como o PROUNI, Pronatec e FIES, que se tornarão mais “rígidos” (entenda-se restritivos).

A imprensa, que desempenhou papel central na articulação do golpe, já começa a “sugerir” mais medidas emergenciais para o novo governo, que denunciam ainda mais o caráter entreguista e retrógrado de todo o processo. Em seu editorial do dia 19/04, a Folha de São Paulo afirmou que “a ruína das finanças nos setores de petróleo e eletricidade” (destacadamente a Petrobrás) era um “empecilho” “aos investimentos em ramos centrais da economia”. Os termos que faltaram ser ditos gritam nas entrelinhas: privatização, entrega de patrimônio público ao capital internacional.

“Nesse contexto de sacrifício geral” (contenção de gastos), prossegue a Folha, “será necessário rever os reajustes de salários e benefícios de servidores federais”. Por ironia, outro “sacrifício”, o aumento de impostos sobre as rendas mais elevadas, não aparece de forma tão pacificada no texto: para a Folha, a sua implantação dependerá de uma solução consensual entre governo e Congresso “que combine eficiência econômica, viabilidade política e justiça tributária”. Ou seja: para os mais ricos, o sacrifício depende de uma quase impossível conciliação.

Poucos dias após a primeira etapa da investida oficial do golpe parlamentar no Brasil, sindicatos, centrais sindicais, movimentos sociais e populares e setores progressistas da sociedade estão novamente unidos, reavaliando o cenário político e pensando nas estratégias de enfrentamento. Por enquanto, uma coisa já é certa: não aceitaremos ser atropelados pelo retrocesso. Nada está tranquilo nem favorável. A luta só está no começo. Haverá resistência, haverá reação.